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quinta-feira, 27 de novembro de 2014 cinema | 16:29

“Nós Somos as Melhores!” trata adolescência com inteligência e sensibilidade

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Bobo e Klara são duas garotas que levam uma vida normal para garotas de 13 anos. Não se dão muito bem com os pais, não são extremamente bonitas, não são as mais populares na escola e, como vivem na Suécia, tentam espantar o tédio com idas ao Centro da Juventude da cidade, que serve como ponto de encontro e local de ensaio para bandas locais.

Irritadas com um grupo de jovens mais velhos que tocavam no lugar, elas inventam que têm uma banda para tocar no lugar dos caras. O ano é 1982, e elas curtem punk e não entendem por que quase todo o mundo acha que o punk morreu.

Esse é o ponto de partida de “Nós Somos as Melhores!”, filme dirigido por Lukas Moodysson (o mesmo de “Amigas de Colégio” e “Corações em Conflito”).

As duas meninas nunca tocaram nada, mas isso não importa. Uma fica com o baixo e outra encara a bateria (são os únicos instrumentos disponíveis no local). Tempo depois, chamam Hedvig, aluna cristã e tímida da escola, para assumir a guitarra na banda.

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“Nós Somos as Melhores!” não é um filme sobre o punk, nem sobre música. Nos EUA, é o tipo de filme descrito como “coming of age movie”, sobre o amadurecimento adolescente. Nesse sentido, é um grande exemplo de como o cinema pode tratar com sensibilidade e humor uma fase tão turbulenta e cheia de descobertas de nossa vida.

Não há aqui os clichês costumeiros dos filmes do gênero. Bobo, Klara e Hedvig, cada uma ao seu modo, escancaram as falhas, manias e dúvidas assim como a esperteza, a petulância e a energia que existem em meninas dessa idade.

Mas “Nós Somos as Melhores!” não é feito apenas para adolescentes. Tem inteligência e vida suficientes para encantar a qualquer um, como outro grande filme deste ano, “Boyhood”.

“Nós Somos as Melhores!” está em cartaz em algumas cidades brasileiras. Em um circuito tomado por “Jogos Vorazes”, é um belo respiro.

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014 cinema, música | 16:21

Documentário “The Punk Singer” deveria ser exibido em escolas

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Assisti finalmente ao documentário “The Punk Singer”, lançado nos EUA em 2013 e que retrata a vida da Kathleen Hanna, feminista, ativista e vocalista dos excelentes Bikini Kill, Le Tigre e Julie Ruin.

O filme é um espetáculo não apenas porque reafirma como a música das bandas era/é muito boa mas também por mostrar a luta de Hanna pela igualdade de direitos, principalmente pelo viés do feminismo. É um filme incisivo, esclarecedor e emocionante. Deveria ser exibido nas escolas.

O Bikini Kill surgiu no início dos anos 1990, em Olympia (Estado de Washington), formado por Hanna, Tobi Vail, Kathi Wilcox e Billy Karren. Época em que o Nirvana, que apareceu na mesma região, ajudava a mudar o mundo. As meninas do Bikini Kill mal sabiam tocar seus instrumentos, mas isso pouco importava.

Elas faziam Punk (assim, em maiúscula), com Kathleen Hanna berrando letras que escancaravam o machismo que reinava no mundo do rock e a violência sofrida por mulheres. “Meninas, para a frente do palco! Meninos, para trás!”, costumava gritar Hanna nos shows, para evitar que elas fossem vítimas de socos e pontapés que eram dados pelos mais “valentões”. Era início dos anos 1990, mas o Bikini Kill ainda faz muito sentido hoje, em que a intolerância e o sexismo aparecem por todos os lados (já viu o clipe de “Blurred Lines”?).

Um dos grandes méritos do filme foi ter revelado por que Kathleen Hanna praticamente largou a música em 2005. Como já é de conhecimento público, conto aqui: porque ela sofria da doença de Lyme, que é transmitida por um carrapato e, se não tratada a tempo, causa dores articulares, paralisia e taquicardia – Hanna demorou cinco anos para receber o diagnóstico correto.

(O documentário me fez lembrar de uma briga entre o Beastie Boys e o Prodigy. Lembro que num Reading Festival de anos atrás os BB iriam se apresentar imediatamente antes do Prodigy, que fecharia o palco principal. Durante o show, os caras do BB pediram para o Prodigy não tocar “Smack My Bitch Up”, porque a música poderia incentivar a violência contra as mulheres. E aí durante o show do Prodigy eles meio que tiraram sarro dos BB e tocaram a faixa. E a molecada pulou bastante durante a música, que é escancaradamente ofensiva.)

O filme mostra muito mais (tem depoimentos de Kim Gordon e Joan Jett, por exemplo), desde o nascimento do Riot Girrrl até a recuperação de Hanna, e merece muito ser visto. Em tempos em que a palavra punk tornou-se tão desgastada, “The Punk Singer” coloca algumas coisas no lugar.

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quarta-feira, 5 de março de 2014 cinema, música | 15:12

Quem é William Onyeabor? Documentário vai atrás do misterioso músico

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Menos ambicioso do que “Searching for Sugar Man” (o excelente documentário que revelou ao mundo o cantor Rodriguez e recebeu como recompensa um Oscar em 2013), mas nem por isso menos recomendável, “Fantastic Man” pretende retirar do esquecimento William Onyeabor, músico nigeriano ainda vivo que lançou discos bem influentes entre 1977 e 1985.

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“Fantastic Man” tem direção de Jake Sumner e vai até Enugu, no leste da Nigéria, para tentar encontrar esse músico misterioso que é definido por Damon Albarn como alguém “único, nada soa parecido. É exatamente o tipo de música que eu gostaria de ser capaz de fazer”.

Mesmo com apenas 31 minutos de duração, o documentário é abrangente e contextualiza o momento musical/social da Nigéria nos anos 1960, com a independência do País. À época, o filme nos mostra, Onyeabor apareceu com canções que misturavam James Brown, blues, soul, tudo a partir de muitos sintetizadores.

O filme entrevista produtores que trabalharam com Onyeabor, visita o estúdio em que gravou boa parte dos discos. O músico vive isolado, não dá ehtrevistas, não faz mais apresentações, não é visto pela cidade.

A música de Onyeabor ganhou impulso com uma coletânea lançada pelo selo Luaka Bop em 2013. E será tema de um grande evento no Barbican, em Londres, com participação de Damon Albarn, Pat Mahoney (LCD Soundsystem), Alexis Taylor (Hot Chip), Kelis, Kele Okereke (Bloc Party), entre outros. O show será em 1º de abril e já está esgotado.

Abaixo, “Fantastic Man”.

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sexta-feira, 22 de novembro de 2013 cinema, Cultura pop | 13:23

O documentário “Cidade Cinza” e o grafite de São Paulo

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Osgemeos no mural que havia sido apagado

Osgemeos no mural que havia sido apagado

São Paulo é desenhada em duas cores: bege e cinza. O bege dos edifícios antigos e malcuidados, dos neo-clássicos que se impõem como fortalezas, dos shoppings que avançam sem parar. E o cinza do asfalto, dos muros intermináveis – e da tinta que a prefeitura usa para apagar o pouco de cor que ousa se meter nessa paisagem triste.

Na gestão Gilberto Kassab (e iniciativa continuada pelo governo Fernando Haddad), uma equipe terceirizada pela prefeitura de São Paulo passou a se deslocar pela cidade para apagar pixos e grafites. Essa política de higienização urbanística teve como ápice uma ação em 2008, quando foi apagado um mural de 700 metros quadrados entre a avenida 23 de Maio e a ligação Leste-Oeste. Segundo a administração municipal, “por engano”.

O grafiteiro Nunca

O grafiteiro Nunca

O episódio é o centro do documentário “Cidade Cinza”, dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, que já foi exibido no É Tudo Verdade, na Mostra de Cinema de SP e que nesta sexta (22) entra em cartaz em oito cidades (Brasília, Curitiba, João Pessoa, Porto Alegre, Salvador, Santos, São Paulo e Sorocaba).

“Cidade Cinza” não se propõe a mapear toda a produção de grafite paulistana – faz um recorte em torno de uma turma específica, principalmente Osgemeos. E vale a pena não apenas por nos aproximar do universo do grafite e da street art, mas porque revela um pouco mais sobre nossa relação com uma metrópole.

“O grafite é o único meio para os jovens falarem. Os jovens estão muito calmos hoje em dia”. A declaração é d’Osgemeos – e é quase premonitória, já que anterior às manifestações de junho de 2013.

Agente contratado pela prefeitura apaga grafite em SP

Agente contratado pela prefeitura apaga grafite em SP

O grafite é coisa séria em São Paulo – parece que só a prefeitura ainda não entendeu isso. Osgemeos é um nome estabelecido no mercado de arte (representado pela Fortes Villaça); Nunca é chamado para fazer murais da Inglaterra à Art Basel de Miami etc. “O grafite ajuda a  compor a cidade, o caos da cidade, e isso é algo positivo”, opina o crítico de arte Fabio Cypriano no documentário.

Talvez o principal acerto do filme não esteja nas cenas dos grafiteiros, mas quando acompanha a equipe encarregada de apagar os grafites. São trechos quase surreais de tão absurdos. Não há nenhum critério – os homens decidem o que apagam ou não de acordo com o que acham “bonito” ou “feio”. “Apagamos o que achamos que é feio. Isso aqui é arte? Isso não é arte!”, brada um dos agentes. E joga tinta cinza sobre um desenho.

O que aconteceu com o painel apagado é emblemático de como o poder público de São paulo enxerga a cultura de rua – após alguns meses, o mural foi restaurado. Com verba não da prefeitura, mas da Associação Comercial de São Paulo. A prefeitura entrou depois que a obra foi terminada. “Muito bonito”, diz Gilberto Kassab, com certo constrangimento, em meio a repórteres e assessores.

Um dos agentes da prefeitura diz o óbvio: “Eles (os grafiteiros) pintem, a gente apaga. Mas estamos enxugando gelo”. O grafiteiro Ise resume: “Em São Paulo é muito fácil pintar. Só não pinta quem não quer”.

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