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sexta-feira, 22 de novembro de 2013 cinema, Cultura pop | 13:23

O documentário “Cidade Cinza” e o grafite de São Paulo

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Osgemeos no mural que havia sido apagado

Osgemeos no mural que havia sido apagado

São Paulo é desenhada em duas cores: bege e cinza. O bege dos edifícios antigos e malcuidados, dos neo-clássicos que se impõem como fortalezas, dos shoppings que avançam sem parar. E o cinza do asfalto, dos muros intermináveis – e da tinta que a prefeitura usa para apagar o pouco de cor que ousa se meter nessa paisagem triste.

Na gestão Gilberto Kassab (e iniciativa continuada pelo governo Fernando Haddad), uma equipe terceirizada pela prefeitura de São Paulo passou a se deslocar pela cidade para apagar pixos e grafites. Essa política de higienização urbanística teve como ápice uma ação em 2008, quando foi apagado um mural de 700 metros quadrados entre a avenida 23 de Maio e a ligação Leste-Oeste. Segundo a administração municipal, “por engano”.

O grafiteiro Nunca

O grafiteiro Nunca

O episódio é o centro do documentário “Cidade Cinza”, dirigido por Marcelo Mesquita e Guilherme Valiengo, que já foi exibido no É Tudo Verdade, na Mostra de Cinema de SP e que nesta sexta (22) entra em cartaz em oito cidades (Brasília, Curitiba, João Pessoa, Porto Alegre, Salvador, Santos, São Paulo e Sorocaba).

“Cidade Cinza” não se propõe a mapear toda a produção de grafite paulistana – faz um recorte em torno de uma turma específica, principalmente Osgemeos. E vale a pena não apenas por nos aproximar do universo do grafite e da street art, mas porque revela um pouco mais sobre nossa relação com uma metrópole.

“O grafite é o único meio para os jovens falarem. Os jovens estão muito calmos hoje em dia”. A declaração é d’Osgemeos – e é quase premonitória, já que anterior às manifestações de junho de 2013.

Agente contratado pela prefeitura apaga grafite em SP

Agente contratado pela prefeitura apaga grafite em SP

O grafite é coisa séria em São Paulo – parece que só a prefeitura ainda não entendeu isso. Osgemeos é um nome estabelecido no mercado de arte (representado pela Fortes Villaça); Nunca é chamado para fazer murais da Inglaterra à Art Basel de Miami etc. “O grafite ajuda a  compor a cidade, o caos da cidade, e isso é algo positivo”, opina o crítico de arte Fabio Cypriano no documentário.

Talvez o principal acerto do filme não esteja nas cenas dos grafiteiros, mas quando acompanha a equipe encarregada de apagar os grafites. São trechos quase surreais de tão absurdos. Não há nenhum critério – os homens decidem o que apagam ou não de acordo com o que acham “bonito” ou “feio”. “Apagamos o que achamos que é feio. Isso aqui é arte? Isso não é arte!”, brada um dos agentes. E joga tinta cinza sobre um desenho.

O que aconteceu com o painel apagado é emblemático de como o poder público de São paulo enxerga a cultura de rua – após alguns meses, o mural foi restaurado. Com verba não da prefeitura, mas da Associação Comercial de São Paulo. A prefeitura entrou depois que a obra foi terminada. “Muito bonito”, diz Gilberto Kassab, com certo constrangimento, em meio a repórteres e assessores.

Um dos agentes da prefeitura diz o óbvio: “Eles (os grafiteiros) pintem, a gente apaga. Mas estamos enxugando gelo”. O grafiteiro Ise resume: “Em São Paulo é muito fácil pintar. Só não pinta quem não quer”.

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