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terça-feira, 25 de novembro de 2014 música | 17:28

“Cores & Valores” é ruptura dos Racionais com o passado

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Das 15 músicas de “Cores & Valores”, sete se encerram com menos de dois minutos de duração, e apenas três têm mais do que três minutos. Do início ao fim, o disco corre em pouco mais de meia hora.

Sendo um álbum dos Racionais MC’s, a banda mais representativa do rap brasileiro, com 25 anos de estrada e que não lançava um disco há 12 anos, “Cores & Valores” causa estranhamento. Afinal, estamos falando de uma banda que compôs hinos como “Negro Drama”, “Vida Loka”, “Capítulo 4, Versículo 3”, “Diário de um Detento”, “Fim de Semana no Parque”, “Mano na Porta do Bar” – músicas que se desenrolam por mais de cinco minutos e contam histórias com o cheiro das ruas.

Mas a duração de uma música, a  gente sabe, não é condição primordial de qualidade. E em “Cores & Valores” os Racionais usam as faixas não como unidades independentes, mas como peças que se encaixam num quebra-cabeça – bom, pelo menos parte delas.

O disco pode ser dividido em dois. A primeira parte reúne as sete primeiras faixas. “Cores & Valores” (e suas duas “irmãs”, “Cores & Valores – Preto e Amarelo”, “Cores & Valores – Finado ‘Neguim'”), “Somos o que Somos”, “Eu Te Disse” e “Preto Zica”, além da vinheta “Trilha” são faixas que se completam. Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock se revezam nos vocais, que são cortados, retrabalhados. As bases fogem do padrão clássico dos Racionais – são mais fluidas e remetem à aproximação do rap norte-americano com a eletrônica.

“Somos o que somos, cores e valores/ pelas marginais os pretos agem como reis/ gostar de nós, tanto faz tanto fez”, manda Mano Brown na faixa de abertura (“Cores & Valores”, e sem sobressaltos entra a segunda música (“Somos o que Somos”), com Ice Blue: “Com sorriso de disfarce, a esperar na solidão/ são meus irmãos, sem fé com ambição”/ fase triste mostra indignação/acúmulo de mágoa, desilusão”.

E aí entra a segunda parte do disco, em que as músicas, aí sim, funcionam com início, meio e fim. O consumismo (e o racismo) é o foco de “Eu Compro (“Eu quero eu compro/ e sem desconto/ à vista/ mesmo podendo pagar tenham certeza que vão desconfiar”).

Soturna, de clima pesada, “A Escolha Que Eu Fiz” é, talvez, a que mais lembra o Racionais de “Sobrevivendo no Inferno” – “No chão por alguns reais/ Missão de risco, ousadia, eu sabia mas sou incapaz/ (…) agora jaz, não dá mais, sou refém do sistema”.

Samples de jornalistas noticiando a briga entre fãs dos Racionais e a PM durante show na Virada Cultural iniciam “A Praça”. A voz de Edi Rock passeia sorbe beats de clima paranóico formado por barulhos e sirenes.

O “Mau e o Bem” é um dos pontos altos. Também com a voz de Edi Rock (Mano Brown aparece menos do que o costume), é um rap-soul em que o ritmo é dado pelo flow de Edi Rock.

Em “Quanto Vale o Show” vemos como Mano Brown sabe fazer rimas espertas. Cita grifes, Kurtis Blow, grifes, carros, bailes sem perder a mão.

O disco termina com “Eu te Proponho”. Outro ponto alto. A faixa sampleia “Castiçal”, uma espécie de ópera-soul-psicodélica do disco mais experimental de Cassiano, “Apresentamos o Nosso Cassiano”, lançado em 1973.

É uma declaração romântica de Mano Brown, que pede: “Baby, vamos fugir desse lugar, baby”. E, ao final, entra Cassiano: “Algo me diz que amanhã a coisa irá mudar/ Só mesmo um grande amor nos faz ter…”.

O amanhã dos Racionais chegou com “Cores & Valores”. É uma ruptura com o passado, mas que faz dos Racionais, uma banda com 25 anos de vida, mais atual do que nunca.

 

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